quinta-feira, 23 de julho de 2026

Unesco alerta: Inteligência artificial pode reduzir receitas da indústria musical em até 24%

Um relatório recente da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) projeta perdas significativas de receita para criadores de música e audiovisual até 2028, devido ao avanço da produção de conteúdo por inteligência artificial (IA). O estudo, intitulado Re|thinking Policies for Creativity, estima que a indústria musical poderá sofrer uma redução de até 24% em suas receitas, enquanto o setor audiovisual pode enfrentar perdas de 21%.

Ameaças da IA e Transformação Digital

A expansão de conteúdos gerados por IA generativa representa não apenas uma ameaça à liberdade artística, mas também pode afetar o financiamento público, fragilizando as indústrias culturais e criativas em todo o mundo. As receitas digitais já correspondem a 35% do rendimento dos criadores, um aumento considerável em relação aos 17% registrados em 2018, indicando uma mudança estrutural no modelo econômico do setor.

No entanto, esse crescimento vem acompanhado de maior precariedade e um risco elevado de violações de propriedade intelectual. O diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, ressaltou a necessidade de “renovar e fortalecer o apoio àqueles que estão engajados na criação artística e cultural em um contexto em que a IA e as transformações digitais estão redefinindo as indústrias criativas”.

Desequilíbrios Globais e Financiamento

A pesquisa da Unesco revelou que, embora 85% dos países incluam as indústrias culturais e criativas em seus planos nacionais de desenvolvimento, apenas 56% definiram objetivos culturais específicos, evidenciando uma lacuna entre compromissos e ações concretas.

O comércio global de bens culturais atingiu US$ 254 bilhões em 2023, com 46% das exportações originárias de países em desenvolvimento. Contudo, esses países representam pouco mais de 20% do comércio global de serviços culturais, um desequilíbrio crescente à medida que o mercado migra para formatos digitais.

O financiamento público direto para a cultura permanece baixo, abaixo de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) global, e com tendência de queda. A transformação digital, apesar de ampliar o acesso a ferramentas e audiências, também intensificou desigualdades e a instabilidade financeira para criadores e profissionais do setor.

Divisão Digital e Mobilidade Artística

As competências digitais essenciais estão presentes em 67% da população de países desenvolvidos, contra apenas 28% em países em desenvolvimento, reforçando a divisão Norte-Sul. A concentração de mercado em poucas plataformas de streaming e a pouca relevância de sistemas de curadoria dificultam a visibilidade de criadores menos conhecidos.

A Unesco também destacou os obstáculos à mobilidade artística internacional. Enquanto 96% dos países desenvolvidos apoiam a mobilidade artística para o exterior, apenas 38% facilitam a entrada de artistas de países em desenvolvimento, restringindo oportunidades e a circulação internacional de criadores.

Igualdade de Gênero: Avanços e Disparidades

No que diz respeito à igualdade de gêneros, a liderança feminina em instituições culturais nacionais aumentou globalmente (de 31% em 2017 para 46% em 2024), mas persistem desigualdades na distribuição. Mulheres ocupam 64% dos cargos de liderança em países desenvolvidos, contra 30% em países em desenvolvimento.

O relatório é a quarta parte da série que supervisiona a implementação da Convenção da Unesco de 2005, sobre a proteção e promoção da diversidade de expressões culturais. O documento foi publicado com apoio do governo da Suécia e da Agência Sueca para a Cooperação Internacional para o Desenvolvimento.

Com informações da Agência Brasil