sábado, 18 de julho de 2026

Projeto “Pequenos Grandes Saberes” une crianças e jovens contra o racismo ambiental no Brasil

Um projeto inovador está dando voz a crianças e jovens de comunidades tradicionalmente afetadas pelo racismo ambiental no Brasil. A publicação Pequenos Grandes Saberes: Um Glossário Climático pelo Olhar de Crianças e Adolescentes, lançada pela ActionAid em parceria com organizações locais, compila relatos e ilustrações de jovens entre 7 e 17 anos que vivem em territórios marcados por saneamento básico precário, calor extremo e alagamentos.

O conceito de racismo ambiental, que descreve as consequências desproporcionais de injustiças sociais e ambientais em determinadas etnias e populações vulneráveis, é abordado sob a perspectiva daqueles que o vivenciam diariamente. Cerca de 350 moradores de seis estados brasileiros, incluindo o Complexo da Maré (RJ), Heliópolis (SP), território indígena Xakriabá (MG), comunidades rurais de Pernambuco, territórios quilombolas da Bahia e quebradeiras de coco babaçu no Tocantins, contribuíram para o glossário ao longo de três anos.

A origem do glossário: a necessidade de nomear injustiças

Carolina Silva, especialista em Educação e Infâncias e uma das responsáveis pela metodologia do projeto, explica que a ideia para a publicação surgiu da percepção das crianças e jovens de que algo estava errado em seus territórios, mas que lhes faltavam palavras para expressar essas injustiças.

“O glossário nasce dessa necessidade de expressão e mostra a potência das nossas crianças e adolescentes e a riqueza dos saberes que compartilham”, afirma Carolina.

Akin e a descoberta do mundo pela visão infantil

O glossário apresenta o personagem Akin, que aprende sobre o mundo através das definições criadas pelos jovens. Na letra ‘A’, por exemplo, Akin entende que agrotóxicos são vistos como algo negativo, que ação comunitária está ligada ao cuidado e que água nem sempre é um recurso acessível e limpo.

A letra ‘E’ aborda a questão da energia, com jovens relatando que a falta de luz afeta mais as regiões pobres, enquanto em bairros mais ricos a energia é restabelecida mais rapidamente. Já na letra ‘I’, inclusão é definida de forma simples e direta como “aceitar todos na brincadeira” ou “ter uma comida legal e boa”.

Metodologia replicável e a importância da perspectiva antirracista

A metodologia desenvolvida pela ActionAid e suas parceiras foi documentada e disponibilizada para ser replicada em escolas, projetos sociais e políticas públicas. O projeto contou com o apoio de organizações como Redes da Maré, UNAS Heliópolis, Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM), Giral, Conselho Pastoral de Pescadores e Pescadoras (CPP) e Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB).

Ana Paula Brandão, diretora Programática da ActionAid Brasil, ressalta a importância de empoderar crianças e adolescentes para nomearem as violências que sofrem e defende a educação ecológica com perspectiva antirracista como uma contribuição fundamental para a educação brasileira.

“Ouvir o que as crianças e adolescentes têm a dizer sobre sua própria realidade é indispensável, e o glossário é um potente instrumento educativo de mobilização e sensibilização para esse debate”, conclui Brandão.

Com informações da Agência Brasil