quinta-feira, 4 de junho de 2026

Orquestra da USP abre a pré-temporada com repertório que celebra diversidade musical

A Orquestra de Câmara da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (OCAM da ECA-USP) inicia sua pré-temporada de concertos de 2026 nesta terça-feira (10), com apresentações também na quarta (11) e quinta-feira (12). Os concertos, com entrada gratuita, ocorrerão no Instituto Tomie Ohtake e no Centro Cultural Camargo Guarnieri, apresentando um repertório diversificado que abrange sons contemporâneos, clássicos e populares.

O evento está organizado em três programas distintos: Cordas, Sopros e Percussão, e Ensemble. Cada programa explora diferentes formações instrumentais e linguagens musicais, refletindo a pluralidade do universo sonoro.

Destaques dos concertos

No programa de sopro e percussão, regido por André Bachur, a OCAM receberá a multi-artista Jéssica Gaspar para uma performance de sua canção “Deus é uma Mulher Preta”. A música, que se tornou enredo do Bloco Ókánbí no Carnaval de Salvador em 2020, aborda a música afro-brasileira e as vivências da população negra.

“Eu fiz essa música sem nenhuma pretensão de desenhar a ideia de Deus, mas de ressignificar o corpo de uma mulher chamada Cláudia Ferreira da Silva, que foi arrastada pela polícia do Rio de Janeiro e teve seu corpo dilacerado e filmado. Eu achei devastador a imagem dela ser lembrada nesse lugar [de violência]. Então pensei: por que não associar o corpo de uma mulher negra à figura do divino?”, explicou Gaspar.

Outro destaque é a homenagem ao ícone da música popular brasileira, Hermeto Pascoal. Será apresentada a estreia da obra “Bruxo Campeão”, composta por Carlos dos Santos, ex-aluno da OCAM e professor na Universidade Federal da Paraíba.

O grupo de cordas, sob a regência de Claudia Feres, interpretará obras clássicas de Aaron Copland e Benjamin Britten, com destaque para “Danças Sacra e Profana para Harpa e Cordas” (1904) de Claude Debussy, com orquestração da harpista russa Liúba Klevtsova.

Já o grupo Ensemble, com regência de Ricardo Bologna, apresentará o programa “Mosaico Contemporâneo”. A orquestra homenageará Olivier Toni, compositor e fundador da OCAM, com o “Improviso para Violoncelo Solo” (2010). O repertório também inclui composições de origem japonesa, como “Kojo No Tsuki” (A Lua Sobre o Castelo em Ruínas) (1901) e “Três Baladas para Hida” (1977).

Repertório plural reflete mudanças acadêmicas

A diversidade do repertório da OCAM na pré-temporada é um reflexo das mudanças na pesquisa musical acadêmica no Brasil. Segundo o maestro Ricardo Bologna, o espaço para sons de origem latina, africana e asiática, que antes era restrito, tem se expandido significativamente.

“Há 30 anos, a pesquisa acadêmica de música no Brasil era, quase sempre, restrita ao estudo da música europeia ou norte-americana”, afirma Bologna. Atualmente, há mais publicações e congressos dedicados à música não europeia e à diversidade da produção musical nacional, incluindo gêneros folclóricos e populares.

Jéssica Gaspar ressalta que a inclusão de mestres nesses campos de pesquisa nas universidades tem sido fundamental para essa inovação. “A inovação está sendo esse movimento de convite para mestres que sabem toda a arquitetura da música, toda a engenharia da sua poesia e que trazem suas próprias palavras. Também é resultado da entrada de corpos [não-brancos] nas universidades.”

Contudo, Gaspar critica a forma como a música não europeia ainda é tratada em um “espaço étnico” nas graduações, em detrimento dos clássicos. “Essa ideia do clássico engessa toda uma célula, um povo, uma linguagem. O que é clássico agora?”, questiona, sugerindo a necessidade de repensar currículos e bibliografias.

Com informações da Agência Brasil