quinta-feira, 23 de julho de 2026

Obras de Tarsila do Amaral em Brasília provocam reflexões sobre temas atuais como trabalho e desigualdade

Obras icônicas de Tarsila do Amaral ganham destaque em nova exposição em Brasília

A exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral” chegou ao Centro Cultural do Tribunal de Contas da União (TCU), em Brasília, apresentando 63 obras da renomada artista modernista brasileira. A mostra, que celebra o centenário da primeira exposição individual de Tarsila em Paris, oferece uma oportunidade única para o público revisitar e refletir sobre a força de suas criações, que atravessam décadas e dialogam com questões contemporâneas.

“Operários”: um retrato atemporal da classe trabalhadora

Um dos destaques da exposição é a obra “Operários” (1933). Com seus 51 rostos de trabalhadores industriais, de diversas etnias e idades, a tela evoca um profundo sentimento de cansaço e seriedade. Segundo Paola Montenegro, sobrinha-bisneta da artista e gestora de seu legado, a obra “Operários” possui uma força que permite aos brasileiros se enxergarem nela. Montenegro ressalta que a pintura pode provocar reflexões sobre debates atuais, como o fim da escala 6 por 1, argumentando que jornadas de trabalho exaustivas afastam as pessoas de direitos básicos como cultura, lazer e tempo livre.

Olhar social e crítica à desigualdade em outras obras célebres

A exposição também apresenta outras telas que abordam a desigualdade e a exploração, como “Segunda Classe” (1933) e “Costureiras” (1950). Essas obras, organizadas por núcleos temáticos por curadoras como Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco, evidenciam o “olhar o outro” presente na produção de Tarsila. A curadora Karina Santiago explica que a variedade de perspectivas de Tarsila, desde seus trabalhos figurativos iniciais até o olhar social pós-década de 1930, oferece uma compreensão profunda do país e do mundo que a artista vivenciou, marcando uma transição de seu privilégio econômico para se tornar uma das principais artistas plásticas do Brasil.

A evolução do olhar de Tarsila e a influência do modernismo

A influência do movimento modernista no pensamento criativo de Tarsila é notável, especialmente em obras icônicas como “Abaporu” (1928), considerada sua obra mais famosa e pertencente a um museu na Argentina. As pesquisadoras destacam como elementos religiosos e de atenção ambiental gradualmente se misturaram às críticas sociais que ela passou a fazer às desigualdades. A quebra da Bolsa de Nova York em 1929, que afetou a família de cafeicultores de Tarsila, marcou um ponto de virada, impulsionando um olhar mais social e uma reflexão sobre o funcionamento da sociedade.

Exploração do onírico e inovações tecnológicas na exposição

Além do “olhar para o outro”, a mostra explora outros temas como “estar no mundo”, “olhar o mundo” e o “mergulho no onírico”. Obras como “Auto-Retrato” (1923), “Palmeiras” (1925) e “São Paulo” (1924) revelam diferentes facetas da artista. Uma atração especial é a sala imersiva com um videografismo que une o símbolo do sapo, recorrente em seus quadros, a animações de obras como “A Cuca” (1924) e “Abaporu” (1928). Essa experiência, criada sem inteligência artificial e com curadoria de Paola Montenegro e Juliana Miraldi, visa provocar a curiosidade, especialmente das crianças, com um conteúdo lúdico.

Tarsila: uma artista à frente do seu tempo

Rachel Vallego aponta que a obra de Tarsila do Amaral exibe atitudes que podem ser consideradas feministas, citando sua decisão de interromper um casamento nos anos 1910, mesmo tendo um filho, com o apoio de sua família para seguir a carreira artística. A exposição, que fica em cartaz até 10 de maio, tem o objetivo de promover visitas de instituições de ensino, incentivando o conhecimento sobre o “pensamento vivo” de Tarsila e levando sua obra por todo o país, consolidando-a como uma mulher “à frente do seu tempo”.

Com informações da Agência Brasil