
Combinação de riscos e aquecimento global
A topografia de Juiz de Fora, localizada em área de montanha e com suscetibilidade natural a deslizamentos e inundações, contribui para que o município receba frequentes alertas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Segundo Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, a posição geográfica faz com que a cidade receba umidade direta do mar. O aquecimento global eleva a temperatura dos oceanos, intensificando a evaporação e, consequentemente, as chuvas quando o ar úmido encontra as montanhas.
“O Oceano Atlântico está muito mais quente do que o normal. Na costa, a temperatura está 3 graus Celsius (°C) acima do normal e isso é muito para o oceano”, explicou Seluchi. Ele ressalta que o ar que transita sobre o mar carrega mais umidade, um efeito diretamente ligado às mudanças climáticas.
Preço das decisões e adaptação
Seluchi lamentou que os desastres sejam um “preço que pagamos pelas decisões tomadas no passado”, criticando o descumprimento de acordos internacionais para conter os impactos climáticos. A solução, segundo ele, é a adaptação e o aumento da resiliência das cidades.
“Nos resta? Nos adaptarmos. Tornar as cidades mais resilientes a esses desastres, o que é muito mais difícil”, analisou. Ele defende a retirada de pessoas de áreas de risco em caso de alerta e o controle da expansão urbana nessas regiões. Como exemplo, cita o Japão, onde moradores são treinados para rotas de fuga em caso de desastres.
Soluções de engenharia e resiliência urbana
Matheus Martins, professor da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em drenagem urbana, aponta soluções de engenharia para aumentar a resiliência de cidades como Juiz de Fora, que cresceu em áreas suscetíveis a cheias e deslizamentos.
Para áreas próximas a rios, ele sugere intervenções como pôlderes, técnica que isola áreas inundáveis com muros e utiliza bombas para escoar o excesso de água. Essa técnica, originária da Holanda, exige manutenção constante.
“Talvez, para grandes volumes [de chuva], o alagamento seja inevitável”, ponderou Martins. “Mas temos que trabalhar a cidade para que ela consiga conviver o melhor possível com isso e os pôlderes são uma das soluções.”
Em áreas de várzea, a construção de parques públicos e a criação de solos mais permeáveis são alternativas. Martins explica que em solos com floresta, 90% da chuva se infiltra, enquanto em áreas urbanizadas, 90% se tornam escoamento superficial, potencializando alagamentos.
Investimentos e obras em Juiz de Fora
A prefeitura de Juiz de Fora possui estudos para intervenções em bairros específicos, mas as obras ainda não foram concluídas. O governo federal aprovou R$ 30,1 milhões para contenção de encostas no município entre 2024 e 2025, através do Novo PAC, com R$ 1,2 milhão já liberado. Para drenagem urbana, há um repasse de R$ 356 milhões programado.
As obras fazem parte do projeto de macrodrenagem Juiz de Fora + 100 e contemplam os bairros Santa Luzia, Industrial, Mariano Procópio e Democrata.
Com informações da Agência Brasil







