quinta-feira, 23 de julho de 2026

Besa Me Mucho leva música latina e política para as ladeiras do Morro da Providência

O bloco Besa Me Mucho transformou as ladeiras do Morro da Providência, no centro do Rio, em um palco vibrante de música latina, batuques brasileiros e um forte discurso de integração continental. O cortejo, que ocorreu neste domingo (8), reuniu moradores, músicos imigrantes e foliões de diversas partes da cidade, com concentração na escadaria da Rua Costa Barros.

Nascido a partir de coletivos culturais atuantes na região, como o Cortejinho RJ, o Besa Me Mucho reforça a ocupação das ruas como um ato político. Os organizadores descrevem a execução de música latina nas vielas da Pequena África como um ato de resistência, destacando a conexão histórica do bloco com a primeira favela do Brasil.

Resistência e liberdade latino-americana

Andrés Martin, de 21 anos, que veio de Madrid para vivenciar seu primeiro carnaval carioca, viu no bloco um símbolo de liberdade. “Todo mundo é livre para fazer o que quiser. O carnaval e a cultura latino-americana representam isso”, afirmou. Para ele, o desfile também proporcionou um momento de reflexão sobre a política migratória, especialmente em relação aos Estados Unidos.

A bióloga venezuelana Salomé, integrante da banda do bloco e moradora do Brasil há sete anos e meio, ressaltou o caráter político do carnaval de rua. “O carnaval é um movimento de resistência, de luta, de ocupar espaços de vida”, disse. Ela defende a ideia de pertencimento latino-americano, argumentando que o Brasil faz parte da América Latina e que as fronteiras são barreiras mentais.

Salomé também celebrou a rua como um espaço democrático de encontro e festa no Rio de Janeiro. “Uma coisa que amo no Rio é que a rua é das pessoas. É onde acontece a festa, o encontro. Temos que continuar ocupando esse espaço sempre”, completou.

Identidade e conexão continental

André Videira de Figueiredo, professor de sociologia e músico do bloco, enfatizou que a proposta musical do Besa Me Mucho é intrinsecamente ligada à sua mensagem política. “É um bloco de música latino-americana, e isso inclui a música brasileira. Entendemos que fazemos parte desse grande aglomerado político que é a América Latina”, explicou.

Ele destacou a responsabilidade do bloco, formado majoritariamente por imigrantes, em momentos de visibilidade como o carnaval. “Falar de uma América Latina livre, de uma ideia de América anterior à América do Norte, é uma tarefa que se impõe”, afirmou.

O editor Felipe Eugênio Santos e Silva, frequentador do bloco, acredita que o Besa Me Mucho ajuda a desconstruir a ideia de que o Brasil estaria isolado do restante do continente. “Existe uma ideia muito ruim de que o Brasil paira acima da América Latina. Isso é um erro imenso. O bloco ajuda a conectar a gente com a cultura dos nossos hermanos, com as músicas e com os modos de existir”, avaliou.

Para ele, a resistência cultural promovida pelo bloco é uma via para a consciência política. “É carnaval, é festa, mas cria uma identidade entre as pessoas. É uma antessala que nos politiza”, disse.

O empresário carioca Michael Pinheiro também apontou o carnaval de rua como uma ferramenta política e de comunicação popular. “O carnaval é o Brasil acontecendo de forma muito objetiva. Mostra para o mundo quem é o nosso povo”, afirmou, considerando a manifestação “de ponta a ponta”.

O sociólogo Rodrigo Freitas complementou, vendo o desfile na Providência como um reforço da identidade latino-americana. “É um ato de resistência. Um bloco que acontece na ladeira conecta a gente com as ladeiras da América Latina e nos identifica como um povo que precisa resistir ao imperialismo”, afirmou.

Freitas concluiu que iniciativas como o Besa Me Mucho são fundamentais para que o Brasil se reconheça como parte integrante do continente. “Somos latinos. Um bloco desses atualiza essa consciência”, acrescentou.

Com informações da Agência Brasil