sábado, 18 de julho de 2026

Estudo brasileiro revela degelo acelerado nas calotas polares com potencial impacto em cidades costeiras

Um estudo inédito, intitulado “Planeta em Degelo” e elaborado a partir de dados do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), aponta para uma aceleração preocupante no derretimento de geleiras. Desde 1976, foram perdidas 9.179 gigatoneladas (Gt) de gelo, com quase a totalidade chegando aos oceanos em estado líquido a partir de 1990. O período entre 2015 e 2024 concentrou 41% desse volume.

O biólogo Ronaldo Christofoletti, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro do projeto de comunicação do Proantar, ComAntar, explicou que o degelo acelerado é um dos “sintomas” do aquecimento global, ao lado de eventos climáticos extremos e queimadas frequentes.

Ameaça às cidades costeiras e aumento do nível do mar

A perda de gelo, equivalente a 18 mil vezes a massa da população mundial, representa um volume de cerca de 9 mil quilômetros cúbicos de água desde 1976. Essa água, ao se juntar aos oceanos, contribui diretamente para o aumento do nível do mar, representando uma ameaça significativa para as cidades costeiras ao redor do mundo.

A maior parte do volume derretido provém da Antártica e da Groenlândia. Desde 2002, a perda nessas regiões já alcança 8 mil gigatoneladas, superando em pouco mais de duas décadas o que as geleiras de todo o mundo perderam em quase 50 anos, indicando um ritmo de aceleração ainda maior.

Impactos climáticos globais e regionais

O aquecimento global, evidenciado pelos recordes de temperatura recentes, é apontado como o principal motor dessa aceleração no degelo. Além do aumento do nível do mar, o derretimento das geleiras altera a salinidade dos oceanos, uma vez que a água doce das geleiras dilui a concentração de sal. Isso pode enfraquecer correntes marítimas cruciais para a distribuição de calor pelo planeta.

Para o Brasil, as regiões polares desempenham um papel vital na regulação do clima. Alterações na circulação oceânica antártica podem afetar padrões de chuva, frentes frias e eventos extremos no país, influenciando a formação de massas d’água profundas que distribuem calor globalmente.

Educação e adaptação como soluções

Ronaldo Christofoletti ressalta a importância da educação ambiental e da “cultura oceânica” para a mitigação desses cenários. Ele cita o Currículo Azul, do governo federal, como um exemplo de iniciativa para integrar o conhecimento sobre os oceanos ao currículo escolar.

A adaptação das cidades costeiras é vista como uma medida urgente diante da inevitabilidade da perda de área terrestre para o mar. O pesquisador também enfatiza a necessidade de cumprimento dos acordos climáticos, como os firmados na COP30 em Belém (PA), para avançar na transição energética e reduzir a emissão de gases de efeito estufa.

Um estudo lançado pela ComAntar durante a COP30 revelou que a frequência de desastres causados por frentes frias e ciclones na costa aumentou 19 vezes nos últimos 30 anos, um reflexo das mudanças climáticas em curso.

O Programa Antártico Brasileiro (Proantar), coordenado pela Marinha do Brasil, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e Ministério de Relações Exteriores (MRE), tem 44 anos de atuação ininterrupta na pesquisa científica na Antártica.

Com informações da Agência Brasil