quinta-feira, 4 de junho de 2026

Bloco de carnaval no Rio homenageia Maria da Penha e alerta para recorde de feminicídios

O Bloco Mulheres Rodadas desfilou na zona sul do Rio de Janeiro nesta quarta-feira (18) com um tom de protesto e homenagem. Fantasias criativas e performances artísticas abordaram a luta contra a violência doméstica e o feminicídio, com destaque para a figura de Maria da Penha, símbolo da luta pela vida das mulheres no Brasil.

Uma das integrantes, a pernalta e acrobata Luciana Peres, de 46 anos, representou as tentativas de assassinato sofridas por Maria da Penha Fernandes em 1983. A farmacêutica, vítima emblemática de violência doméstica, deu nome à lei federal que tipifica o crime no país, sancionada em 2006.

Conscientização através da arte

“Eu não consegui pensar em outro assunto que não fosse a luta pela vida das mulheres”, afirmou Peres. Ela ressaltou a importância de discutir os 20 anos da Lei Maria da Penha, que se completarão em 2026, em contraponto ao recorde de feminicídios registrado no ano passado, com 1.518 vítimas, segundo o Ministério da Justiça e da Segurança Pública.

Desde 2015, o Bloco Mulheres Rodadas utiliza suas apresentações para discutir assédio, violência doméstica e feminicídio. Através de fantasias, placas e performances, o grupo busca conscientizar o público. A música “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, por exemplo, é utilizada pelas pernaltas para simular a violência transfóbica, tema que também coloca o Brasil no topo do ranking de assassinatos de pessoas trans.

A solidariedade entre as mulheres é outro tema abordado, com momentos em que uma integrante puxa a outra do chão, simbolizando a união e o apoio mútuo.

Seleção musical e participação internacional

A seleção musical é cuidadosamente elaborada pela regente e coordenadora de percussão, Simone Ferreira. O repertório prioriza intérpretes e compositoras mulheres, além de músicas que exaltam a condição feminina. Entre as canções estão clássicos como “Abre Alas” (Chiquinha Gonzaga), “Vai, Malandra” (Anitta), “Ama Sofre e Chora” (Pabllo Vittar), “Vermelho” (Fafá de Belém), e sucessos internacionais como “Toxic” (Britney Spears) e “Girls Just Want Have Fun” (Cyndi Lauper).

O bloco atraiu turistas e artistas estrangeiros. A pernalta francesa Lucie Cayrol, de Toulouse, aproveitou a ocasião para homenagear a advogada franco-tunisiana Gisèle Halimi, que teve papel fundamental na despenalização do aborto na França em 1975. Cayrol também relembrou o caso de Gisèle Pelicot, vítima de violência doméstica por uma década, que lançou um livro de memórias e viu seu agressor ser condenado em 2024.

Apelo por políticas públicas e engajamento masculino

Renata Rodrigues, jornalista e coordenadora do bloco, destaca a atualidade do tema mesmo após dez anos de fundação do coletivo. “Nós somos um dos poucos coletivos, no Rio, que discute a violência contra a mulher no carnaval”, afirmou, ressaltando a necessidade de apoio do poder público e da iniciativa privada para ampliar o alcance da mensagem.

O folião Raul Santiago enfatizou a importância do engajamento masculino no combate à violência contra a mulher. “Os homens precisam estar junto, precisam mudar a atitude e a forma de pensar, ser antimachista, entender os lugares sociais e defender a igualdade”, declarou.

Com informações da Agência Brasil