quinta-feira, 4 de junho de 2026

Carnaval gera mais retorno econômico que indústria automobilística, aponta economista

Um real investido em cultura e artes, incluindo o Carnaval, pode gerar um retorno significativamente maior para a economia do que o mesmo valor aplicado em setores tradicionais da indústria, como o automobilístico. A afirmação é da economista ítalo-americana Mariana Mazzucato, uma das vozes mais influentes na área de economia da inovação, que esteve no Brasil para estudar a economia criativa em torno da folia.

“O investimento público em artes e cultura contribui muito mais para a economia do que grande parte da indústria manufatureira tradicional”, declarou Mazzucato em entrevista à Agência Brasil. Ela ressaltou que, apesar das evidências, governos continuam priorizando setores industriais convencionais.

No Brasil, estudos indicam que cada real investido em cultura pode retornar R$ 7,59 para a sociedade, por meio da geração de empregos e renda. Em contrapartida, um real aplicado no setor de automóveis e caminhões tem um impacto multiplicador de R$ 3,76, segundo dados da Fundação Getúulio Vargas (FGV) e da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial.

O Carnaval como motor da economia criativa

Mazzucato, autora do livro “O Estado Empreendedor”, enfatiza que o Carnaval transcende o turismo e o consumo imediato, gerando benefícios sociais, de bem-estar e saúde mental, especialmente em comunidades vulneráveis. “Mais do que apenas falar da comida, da bebida, dos hotéis e do turismo durante o Carnaval, é o impacto social das habilidades, das escolas, das redes, do valor da coesão social, do senso de identidade e patrimônio”, explicou.

A economista defende que o Carnaval seja o pilar para a expansão da economia criativa no Brasil, um modelo de negócios que se baseia em capital intelectual, cultural e criatividade para gerar emprego e renda. Ela também questionou a narrativa de “falta de dinheiro” para investimentos em cultura, apontando que o setor pode contribuir para a redução da criminalidade.

Investimento público e o papel do Estado

Mazzucato criticou a disparidade de investimento, comparando a facilidade com que recursos são alocados para guerras e defesa, em contraste com a argumentação de escassez para áreas como educação, saúde e cultura. “É interessante ver que para guerras e Defesa, o dinheiro surge do nada. […] Mas, em outras áreas, como educação, saúde e cultura, de repente dizemos: ‘Ah, não há dinheiro’.”, pontuou.

A economista ressaltou que o investimento público em cultura é crucial para atrair investimentos privados e que a questão não é se o Estado deve investir, mas como deve fazê-lo. Ela também alertou para os riscos de concentração de renda, questionando se os patrocínios estão sendo reinvestidos nas comunidades que criam a criatividade do Carnaval.

Carnaval vivo e a importância do pertencimento

Ao visitar Rio de Janeiro e Salvador, Mazzucato observou o Carnaval brasileiro como um evento globalmente famoso, com um efeito multiplicador que gera bilhões em receita. No entanto, ela destacou que seu valor vai além do financeiro, sendo um momento de união de diversas atividades artísticas e culturais, muitas vezes enraizado em comunidades carentes.

Comparando com o Carnaval de sua região natal na Itália, que descreveu como “morto”, Mazzucato elogiou o Carnaval brasileiro por ser “vivo” e por preparar os jovens para a participação. Ela encoraja os brasileiros a verem o Carnaval como um investimento a longo prazo, central para uma economia criativa vibrante.

Com informações da Agência Brasil