quinta-feira, 23 de julho de 2026

Carnaval pode ser plataforma central para expandir a economia criativa no Brasil, diz economista

O Carnaval brasileiro possui um potencial subestimado para impulsionar a economia criativa do país. Segundo a economista ítalo-americana Mariana Mazzucato, o retorno de cada real investido em cultura e artes, incluindo a maior festa popular do Brasil, é superior ao de investimentos em setores tradicionais da indústria, como o automobilístico.

Em entrevista à Agência Brasil, Mazzucato ressaltou que o investimento público em artes e cultura contribui significativamente para a economia, gerando empregos e renda. Estudos indicam que, no Brasil, um real investido em cultura pode render R$ 7,59 para a sociedade, enquanto no setor automotivo o impacto multiplicador é de R$ 3,76.

Economia criativa e o Carnaval

Mazzucato, autora do livro “O Estado Empreendedor”, visitou Rio de Janeiro e Salvador para estudar a economia criativa em torno do Carnaval e defende que a festa seja o centro de uma plataforma para expandir esse modelo de negócios, baseado em capital intelectual, cultural e criatividade. Ela questiona a tese de que “não há dinheiro” para investimentos em cultura, lembrando que o setor contribui para a redução da criminalidade e promove coesão social, identidade e senso de patrimônio.

A economista lidera uma pesquisa, em cooperação com a Unesco, que investiga o papel das artes e da cultura no desenvolvimento econômico. Ela alerta, no entanto, para os riscos de concentração de renda e questiona se os patrocínios estão sendo reinvestidos nas comunidades que geram a criatividade.

Retorno do investimento em cultura

Mazzucato enfatiza que o investimento em artes e cultura não deve ser visto como periférico, mas sim como essencial para o desenvolvimento econômico. Ela compara a dinâmica do Carnaval a um “microcosmo” da economia criativa, onde atividades artísticas e culturais, como música, dança e confecção de fantasias, geram uma cadeia de valor que vai além do turismo e do consumo imediato.

“Mais do que apenas falar da comida, da bebida, dos hotéis e do turismo durante o Carnaval, é o impacto social das habilidades, das escolas, das redes, do valor da coesão social, do senso de identidade e patrimônio”, afirmou a economista.

O papel do Estado e do setor privado

A economista defende que o Estado deve investir em cultura de forma estratégica, assim como o faz em áreas como Defesa e Saúde. Ela critica a narrativa de “falta de dinheiro” para áreas culturais, enquanto recursos são alocados em outros setores sem questionamentos. Mazzucato também ressalta a importância de parcerias com o setor privado, desde que orientadas por objetivos públicos e que catalisem a inovação e o investimento.

“Devemos sempre lembrar que existem relações de poder. Quem tem acesso [ao Carnaval]? Está se tornando muito comercial? Para onde vai o dinheiro? Os patrocínios, por exemplo, estão sendo reinvestidos nas comunidades e no ecossistema que cria essa incrível criatividade?”, questionou.

Mazzucato compara o Carnaval brasileiro com o de sua região natal na Itália, destacando a vitalidade e o enraizamento cultural da festa no Brasil, que deve ser vista como um investimento a longo prazo no centro de uma economia criativa.

Com informações da Agência Brasil