quinta-feira, 4 de junho de 2026

Mulheres dominam o carnaval de rua: conheça os Brilhetes de Anchieta e sua tradição de bate-bolas

O segredo está prestes a ser revelado: na próxima sexta-feira (13), o grupo Brilhetes de Anchieta, formado por 38 meninas e mulheres, apresentará sua aguardada indumentária após seis meses de preparação secreta. Os bate-bolas, uma tradicional manifestação cultural do carnaval suburbano carioca, ganham força com a participação feminina, quebrando barreiras e reafirmando seu espaço na folia.

Caracterizados por suas fantasias ricas em cores e pela inseparável bola de borracha presa a um bastão, os bate-bolas são uma expressão artística vibrante do carnaval. Embora a aparência possa ter mudado e o susto inicial dado lugar a uma brincadeira mais familiar, o som característico das bolas batendo no chão permanece como um elo com o passado.

A saída dos Brilhetes de Anchieta, que celebra seu 13º ano, promete ser um espetáculo à parte. Ao som de fogos e funk, as integrantes, com idades que variam de 3 a 58 anos, desfilarão exibindo o resultado de um trabalho coletivo. O grupo reúne mulheres de diversas profissões, como professoras, técnicas de enfermagem, bombeiras e pesquisadoras, unidas pela paixão pela tradição.

A força de uma segunda família

Fundado em 2013 pela produtora cultural Vanessa Amorim, o grupo nasceu do desejo de ver as mulheres ocupando o protagonismo na brincadeira. “As mulheres ficavam sempre na posição de mãe e esposa e nunca como brincante”, relata Vanessa, que antes desfilava com o grupo do sogro. A iniciativa transformou os Brilhetes em uma verdadeira “segunda família” para muitas integrantes.

Alexandra Cunha, 44 anos, descreve a emoção de participar ativamente da confecção das fantasias, desde a aplicação de glitter até a montagem das peças. “No dia da saída, com o bate-bola pronto, a gente chora de emoção”, confessa. A estudante Ana Júlia Guimarães, 17 anos, desfilará pela primeira vez ao lado da mãe, que a introduziu ao universo dos bate-bolas há três anos.

Homenagem à arte e à resistência

Em 2026, os Brilhetes de Anchieta prestam uma emocionante homenagem à escritora Conceição Evaristo, que completa 80 anos. O lema “eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer”, de Conceição, inspira muitas integrantes, especialmente as mulheres negras do grupo. “Conceição é uma artista que escreve desde sempre e só recentemente foi notada”, afirma Vanessa, ressaltando a importância de celebrar a escritora em vida.

Em anos anteriores, o grupo já homenageou ícones como Marilyn Monroe e celebrou a natureza, demonstrando a versatilidade e o engajamento temático das fantasias, que incluem desde luzes de LED até pinturas feitas à mão. Cada fantasia é uma obra de arte, com um custo que pode variar entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil, financiada por pagamentos mensais das integrantes.

Desafios e a busca por reconhecimento

Apesar da organização e do reconhecimento dos bate-bolas como Patrimônio Cultural desde 2012, o apoio financeiro do Estado ainda é considerado insuficiente. Caroline Bottino, professora de Turismo da Uerj, aponta a “segregação de investimentos na festa” e a centralização do carnaval em áreas turísticas e centrais.

A dificuldade de inscrição no concurso anual de fantasias, que exige presença física no centro do Rio, é um dos entraves para grupos do subúrbio. “Para a gente, é muito difícil, porque, daqui, saímos de trem, e isso pode demorar 1h, 1h20”, explica Vanessa Amorim, que almeja maior visibilidade para a qualidade de seu trabalho.

Com informações da Agência Brasil