
O jornalista Rafael Cardoso lançou, nesta semana no Rio de Janeiro, o livro “Autobiografias de escravizados: Frederick Douglass, William Grimes e abolicionismo nos Estados Unidos”, pela editora Dialética. A obra, fruto de seu mestrado em história na Universidade Federal do Estado do Rio (UNIRIO), adota uma perspectiva incomum ao investigar a escravidão norte-americana a partir de relatos em primeira pessoa, diferentemente de estudos que frequentemente analisam o Brasil sob um olhar estrangeiro.
Cardoso destaca a abundância de relatos escritos por pessoas que fugiram da escravidão no sul dos EUA para o norte abolicionista, um material que, segundo ele, não possui paralelo no Brasil. “Nós não tivemos no Brasil esse tipo de texto, de narrativa em primeira pessoa”, observa o autor, explicando que, no país, a reconstrução histórica sobre os escravizados se baseia majoritariamente em documentos oficiais e gerenciais, dada a alta taxa de analfabetismo da população escravizada.
Um olhar para além das fronteiras
O jornalista defende a importância de expandir o olhar para além do que é mais próximo. “A gente não pode limitar o nosso olhar só para o que é mais próximo”, recomenda Cardoso ao explicar seu interesse pela escravidão em outro país. Ele ressalta que a única exceção brasileira a essa carência de narrativas escritas por escravizados é a biografia de Mahommah Gardo Baquaqua, um homem nascido no atual Benim que passou pela escravidão no Brasil.
As vozes de Douglass e Grimes
Para sua pesquisa, Cardoso escolheu dois homens “da segunda ou terceira geração de escravizados nos Estados Unidos”: o proeminente líder abolicionista Frederick Douglass (1818-1985) e o barbeiro William Grimes (1784-1865). Ambos publicaram múltiplas autobiografias, permitindo ao autor analisar as transformações sociais nos Estados Unidos escravista ao longo de cerca de 30 anos, a partir das experiências e descrições dos autores.
Através das narrativas individuais, o historiador examina como os locais de vivência, os laços familiares, as relações sociais e o contexto político influenciaram a vida e a autoimagem dos sujeitos. Conforme sua perspectiva marxista-gramsciana, Cardoso argumenta que “influências estruturais, econômicas e sociais condicionam nossas escolhas, limitam as nossas escolhas e possibilidades de vida.”
Rafael Cardoso, que atua como repórter na Agência Brasil cobrindo pautas sociais e ambientais, acredita que o estudo da história aprimora a “visão crítica e analítica” da realidade, ferramentas essenciais para seu trabalho jornalístico.
Com informações da Agência Brasil







