quinta-feira, 4 de junho de 2026

Samba-enredo como arma política: sociólogo revela a luta das escolas de samba pela democracia

O samba-enredo, muitas vezes visto apenas como a trilha sonora dos desfiles de carnaval, carrega em suas entrelinhas um poderoso enunciado político. Segundo o sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino, a trajetória das escolas de samba, especialmente durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985), foi marcada por uma intensa luta pela democracia, com compositores, carnavalescos e membros sendo vigiados, censurados e até presos.

A defesa de doutorado de Reduzino, intitulada “Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia”, analisou os sambas-enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro na década de 1980, um período de transição democrática que abrangeu a campanha pelas Diretas Já e a eleição de Fernando Collor.

Em entrevista à Agência Brasil, Reduzino destacou que o apagamento da intelectualidade e da humanidade negra, uma dimensão do racismo estrutural brasileiro, frequentemente leva ao esquecimento do papel político das escolas de samba. “O samba-enredo é um grande enunciado político”, afirma o sociólogo, ressaltando que a criação de um enredo demandava um processo comunitário extenso, transformando críticas à tortura e gritos por liberdade em atos políticos significativos.

A violência do Estado contra a cultura popular

Reduzino aponta que a repressão contra as escolas de samba adicionava uma camada de violência estatal contra as camadas populares, a população negra e periférica. Ele relembra o Código de Vadiagem (Decreto-Lei 3.688/1941), que historicamente foi utilizado para associar pessoas negras a instrumentos musicais e à vadiagem, facilitando abordagens policiais.

O papel dos mecenas do jogo do bicho

A associação das escolas de samba com o jogo do bicho, segundo o sociólogo, ganhou força durante a ditadura militar, com o surgimento de “mecenas” que buscavam visibilidade. Reduzino critica a responsabilização das escolas de samba por essa contravenção, salientando que esses mesmos bicheiros dialogavam diretamente com o poder público e circulavam nos espaços de poder.

O mito da democracia racial e o silenciamento

A construção do mito da democracia racial, promovida por parte da elite brasileira, é vista por Reduzino como um pilar da estrutura racista, negando realidades como a alta taxa de mortes de jovens negros e a violência obstétrica contra mulheres negras. Ele ressalta que, mesmo quando o samba cantava um “grande Brasil”, os arquivos do DOPS revelam o fichamento de intelectuais negros e ativistas do movimento cultural negro, como Lélia González e Clóvis Moura, justamente por questionarem essa ideia de democracia racial.

A crítica de que muitos enredos se baseavam na historiografia oficial, alienando o processo histórico, é contestada por Reduzino. Ele argumenta que a historiografia oficial é uma “memória oficial” forjada pelo Estado e pela elite acadêmica, e que questionar essa oficialidade nas escolas de samba, enquanto a academia não é igualmente criticada, configura um estigma. Dados da pesquisa indicam que, na década de 1970, apenas quatro de 140 enredos fizeram apologia ao regime militar, desmistificando a ideia de adesão generalizada das escolas de samba à ditadura.

Com informações da Agência Brasil