sábado, 18 de julho de 2026

Estudo revela que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres

Um estudo recente aponta que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres. Essa realidade impacta diretamente a vida profissional e os estudos das mulheres, que frequentemente interrompem suas carreiras para dedicar tempo integral ao cuidado de familiares idosos, doentes ou com deficiência.

O peso do trabalho do cuidado

A pesquisadora Valquiria Elita Renk, professora da PUCPR e uma das autoras do estudo, destaca que o trabalho do cuidado, muitas vezes invisível e sem fim, é culturalmente internalizado pelas mulheres brasileiras. “Uma mulher para de estudar para cuidar dos irmãos, dos trabalhos domésticos. Faz isso todos os dias e, quando termina, recomeça no dia seguinte. É um trabalho que não tem fim”, afirma Renk.

Políticas públicas e reconhecimento

Enquanto países como Finlândia, Dinamarca, França, Alemanha, Holanda, Reino Unido, Irlanda e Espanha já possuem políticas de apoio e compensação financeira para cuidadores, o Brasil ainda engatinha. A Política Nacional do Cuidado, instituída no final de 2024, está em fase de implementação.

A professora defende o reconhecimento social e a compensação financeira para as cuidadoras. Ela ressalta a importância de considerar o cuidado não apenas como uma tarefa, mas como um trabalho que forma vínculos afetivos e que deveria ser contabilizado para a aposentadoria, como já ocorre no Uruguai em relação à licença-maternidade estendida.

Metodologia e perfil das cuidadoras

A pesquisa envolveu 18 entrevistas com mulheres de áreas urbanas e rurais do Paraná e Santa Catarina. A maioria das entrevistadas são filhas (68%) ou esposas (21%) de pessoas cuidadas, com idades entre 41 e 60 anos (43%). Muitas possuem ensino fundamental (58%) e, apesar da diversidade de profissões, 61% pararam de trabalhar para se dedicar integralmente ao cuidado.

Cansaço, solidão e a “Geração Sanduíche”

As mulheres relatam cansaço extremo, solidão e sensação de desamparo, muitas vezes sem apoio familiar e sem previsão de previdência. O estudo também chama atenção para a sobrecarga da “Geração Sanduíche”, mulheres que conciliam trabalho formal, gestão doméstica e cuidado com filhos e idosos.

A pesquisadora aponta a educação como um caminho para mudar essa realidade. “É preciso ver a educação como um processo humanitário e uma mudança cultural muito grande, no sentido de que a sociedade, as famílias, se responsabilizem para que não recaia só sobre as mulheres o cuidar exaustivo”, defende Valquiria.

Recentemente, alguns juízes brasileiros têm determinado que ex-maridos paguem pelo tempo dedicado pelas ex-mulheres ao cuidado dos filhos, o que Valquiria considera “uma luzinha no fim do túnel”.

Com informações da Agência Brasil