quarta-feira, 24 de junho de 2026

Diferença de mais de 100 pontos no ENEM reacende debate sobre educação no Amazonas

Os números do ENEM 2025 reacenderam um debate delicado sobre a qualidade do ensino no Amazonas. Enquanto as melhores escolas do Brasil ultrapassaram a marca dos 800 pontos na média geral do exame, a primeira colocada do estado ficou abaixo dos 700 pontos, uma diferença que evidencia o enorme abismo educacional existente entre o Amazonas e os principais polos de excelência do país.

Segundo o ranking nacional, o Colégio Ari de Sá Cavalcante, do Ceará, liderou o Brasil com média de 801,30 pontos. Logo atrás aparece o tradicional Farias Brito Colégio de Aplicação, também do Ceará, com 793,33 pontos. O top 10 nacional ainda reúne instituições do Piauí, São Paulo, Pará e Rio de Janeiro, todas acima da marca dos 758 pontos.
Já no Amazonas, a melhor média registrada foi de 698,60 pontos, obtida pelo Centro de Ensino Alpha Delta. Na prática, isso representa uma diferença superior a 102 pontos em relação à escola líder nacional.

INTERNET DEMOCRATIZOU O ACESSO — MAS NÃO O RESULTADO

A discrepância chama ainda mais atenção porque, diferentemente de décadas passadas, o acesso ao conhecimento hoje está praticamente universalizado.
Com a popularização da internet, estudantes do Amazonas possuem acesso às mesmas:
• plataformas digitais;
• videoaulas;
• simulados;
• inteligências artificiais;
• bancos de questões;
• materiais em PDF;
• aulas online.

Em teoria, isso deveria reduzir significativamente as desigualdades regionais. No entanto, os resultados do ENEM mostram que a distância permanece enorme. Outro ponto que intensifica o debate é o fato de muitas escolas particulares de Manaus cobrarem mensalidades semelhantes às praticadas por instituições de Fortaleza, São Paulo e Rio de Janeiro, cidades que dominam historicamente os melhores resultados do exame.

A pergunta inevitável passou a circular entre pais, professores e estudantes:
por que alunos com acesso semelhante à tecnologia e mensalidades parecidas apresentam desempenhos tão diferentes?

CEARÁ VIROU REFERÊNCIA NACIONAL EM APROVAÇÕES

O Ceará consolidou nos últimos anos uma verdadeira cultura de alta performance acadêmica.
Das três melhores escolas do Brasil no ranking apresentado, todas são cearenses. Especialistas atribuem o sucesso ao modelo de preparação intensiva, ao acompanhamento individualizado e à forte cultura de vestibulares implantada no estado há décadas.

Enquanto isso, o Amazonas ainda enfrenta dificuldades históricas na construção de um modelo educacional competitivo em escala nacional.

FIM DA BONIFICAÇÃO DA UFAM AUMENTOU A PRESSÃO

O cenário se tornou ainda mais desafiador após o fim da bonificação regional da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
A medida, aprovada pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe) em 2017, concedia bônus na nota do SISU para estudantes que cursaram o ensino médio no Amazonas. O objetivo era reduzir desigualdades históricas enfrentadas pelos alunos da região Norte.

Entretanto, a política acabou derrubada judicialmente após entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou a bonificação incompatível com o princípio constitucional da igualdade.

Segundo a decisão: “A medida viola o princípio constitucional da igualdade.” Na prática, estudantes amazonenses passaram a disputar vagas em Medicina e outros cursos altamente concorridos em condições de igualdade frente a Estados que historicamente concentram os melhores desempenhos do ENEM.

MESMO DIANTE DAS DIFICULDADES, AMAZONAS TEM DESTAQUES

Apesar do cenário preocupante, alguns resultados individuais chamaram atenção e mostraram que o estado ainda possui talentos capazes de competir em alto nível nacional.

Um dos casos mais comentados foi o do estudante de Escola Pública Marlo Feitosa, aprovado em 1º lugar em Medicina na UFAM pelo SISU/ENEM 2026 que se preparou em um cursinho local que atua com foco em alta performance.

A conquista ganhou destaque justamente por ocorrer em um contexto de forte desigualdade educacional e alta competitividade nacional, reforçando que desempenho de excelência ainda é possível mesmo diante das limitações estruturais enfrentadas no estado.

O PROBLEMA NÃO É MAIS ACESSO À INFORMAÇÃO

Educadores avaliam que o grande desafio atual talvez não seja mais acesso ao conteúdo, mas a forma como ele é transformado em desempenho acadêmico.

O ranking do ENEM deixou evidente que possuir internet não significa necessariamente possuir preparação eficiente.
Os números reacendem discussões urgentes sobre:

• qualidade pedagógica;
• cultura de excelência;
• métodos de ensino;
• formação de professores;
• acompanhamento individualizado;
• foco em alta performance;
• gestão orientada por resultados.
Porque, em pleno 2026, o conhecimento ficou mais acessível, mas os resultados continuam profundamente desiguais?